quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Desconhecido Íntimo


É mais um dia como qualquer outro. Lá está você, em pé ao lado do seu carrinho, pensando em qual das filas entrar sem esquecer que o tempo que te faz ficar em dúvida entre a da esquerda e da direita, é o mesmo que faz com elas continuem crescendo. Pronto, você decidiu e caminha em direção a sua fila. Enquanto aguarda sua vez, pega uma revista e começa a folhear, mas logo se distrai com o choro da criança que se mistura com a música ambiente e a briga em um cliente e uma funcionária no caixa ao lado. No mesmo instante, o senhor que estava em minha frente e também observava a briga, começou a conversar. Eu fiquei só ouvindo enquanto ele falava o quão absurda era aquela situação. A fila foi andando e ele continuava falando sobre os mais diversos assuntos e fazendo piada com o meu silêncio. Até que chegou a sua vez. E logo depois, esboçando um sorriso acompanhado por um gesto com a mão, ele deixou o supermercado.

Não sei qual é o seu nome, seu endereço, se é casado ou solteiro, se tem filhos ou não. Mas durante alguns minutos descobri que ele gosta de Pink Floyd e que sonhava em ser guitarrista. Adorava cozinhar e pelo seu bronzeado detestava ir à praia. Eu sabia coisas tão íntimas e não sabia o seu nome ou se ele sempre fazia compras naquele supermercado. Ele era aquela pessoa que você conhece mesmo desconhecendo. Um desconhecido que por alguns minutos se tornou tão íntimo que chegou a dividir com você histórias de sua vida.

Ele é o desconhecido íntimo. Ele está em toda parte. No ônibus, na fila da padaria, do banco, do supermercado... E pode desde estabelecer conversas de minutos e silêncios constrangedores a uma simples troca de olhares. Os desconhecidos também são tímidos. Sim, muitas vezes você nunca chegou a conversar com ele, mas de tanto se encontrarem, já decorou seu rosto, a maneira como se veste e os lugares que frequenta.

Você dividi com ele pequenos momentos do seu dia. Como o caminho até o trabalho ou as compras da semana. Compartilham de cenas engraçadas a reclamações sobre a vida. Mas quando esse momento termina, quando a fila anda ou quando o ônibus chega ao seu destino, ele se vai. Na hora, ninguém se lembra de nomes ou endereços. Ele segue o seu caminho e você fica só com um rosto conhecido de um desconhecido. E quando se encontrarem de novo, vocês vão se olhar, esboçar um sorriso ou um aceno, como fazem dois conhecidos ou dois desconhecidos íntimos.

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